Os rins estão localizados na parte posterior do abdome, um de cada lado da coluna vertebral. Além de filtrar o sangue e produzir urina, têm função importante na regulação da pressão arterial e na produção de hormônios. O sangue filtrado pelos rins retorna à circulação por meio de veias que desembocam na veia cava inferior — o maior vaso venoso do abdome, responsável por conduzir o sangue de volta ao coração.
Alguns tumores renais têm a capacidade de crescer para dentro da veia renal e, a partir daí, se estender progressivamente pela veia cava inferior na forma de um trombo tumoral — uma projeção sólida do tumor dentro do vaso, que pode ascender em direção ao coração. Esse comportamento é característico do carcinoma de células renais e representa um dos cenários cirúrgicos mais complexos da cirurgia oncológica abdominal.


A presença do trombo tumoral na veia cava não significa, por si só, que o tumor seja irressecável ou incurável. Significa, no entanto, que a cirurgia será substancialmente mais complexa do que uma nefrectomia convencional — e que deve ser realizada por uma equipe com experiência específica nessa situação.
O trombo pode se estender ao longo da veia cava em diferentes alturas. Quando permanece abaixo do fígado, a cirurgia é realizada inteiramente no abdome, pela equipe de cirurgia oncológica. Quando o trombo avança além do fígado e adentra o coração, a operação exige a participação conjunta da cirurgia cardíaca, com circulação extracorpórea — um dos cenários cirúrgicos de maior complexidade em toda a oncologia.
A cirurgia consiste na remoção do rim acometido em conjunto com o trombo tumoral — integralmente, em bloco. Para isso, é necessário controlar a veia cava acima e abaixo do trombo, interromper temporariamente o fluxo sanguíneo no vaso e remover o trombo com segurança, sem fragmentá-lo — o que poderia causar embolia pulmonar ou disseminação tumoral.
Quando o trombo se estende até a região retro-hepática — atrás do fígado —, as técnicas de cirurgia hepatobiliar são indispensáveis: o fígado precisa ser mobilizado e, em alguns casos, o fluxo sanguíneo hepático deve ser temporariamente interrompido para permitir o acesso seguro à veia cava nesse nível. É precisamente aqui que a experiência em cirurgia hepática de alta complexidade se torna determinante.
Nos casos em que o trombo adentra o átrio direito, a operação é realizada em conjunto com a equipe de cirurgia cardíaca, sob circulação extracorpórea — o coração é temporariamente parado para permitir a remoção segura do trombo intracardíaco.

Poucos centros no Brasil realizam essa cirurgia com regularidade. A complexidade não está apenas no ato de remover o rim — está no controle vascular preciso da veia cava, no manejo das estruturas hepáticas adjacentes e, nos casos mais avançados, na integração com a cirurgia cardíaca. Uma complicação intraoperatória mal manejada nesse cenário pode ser fatal.
É uma cirurgia que exige, acima de tudo, uma equipe acostumada a operar em múltiplos compartimentos simultaneamente — e que tenha feito isso muitas vezes antes.