Câncer de Ovário Avançado

Câncer de Ovário Avançado

O câncer de ovário e a superfície peritoneal

O câncer de ovário avançado é, na essência, uma doença peritoneal. Quando o tumor ultrapassa os limites do ovário e se dissemina pelo abdome, implanta-se na superfície do peritônio — a membrana que reveste internamente a cavidade abdominal e envolve os órgãos digestivos. Essa disseminação pode atingir o diafragma, o fígado, o estômago, o intestino delgado e grosso, o baço e a pelve, em extensão variável.

É por isso que a cirurgia do câncer de ovário avançado tem muito mais em comum com a cirurgia de fígado, estômago, pâncreas e peritônio do que com uma cirurgia ginecológica convencional. Remover completamente a doença exige um cirurgião capaz de operar em todos esses compartimentos com igual domínio técnico.

Pelve feminina com massas ovarianas e implantes peritoneais

Por que a cirurgia completa é insubstituível

Os avanços nos tratamentos medicamentosos para o câncer de ovário — quimioterapia, terapias-alvo e imunoterapia — têm sido significativos nas últimas décadas. No entanto, um princípio permanece inabalável: a única possibilidade real de cura no câncer de ovário avançado é a remoção cirúrgica completa de todo o tumor visível.

Estudos consistentes demonstram que pacientes submetidas a citorredução completa — sem qualquer resíduo tumoral ao final da cirurgia — apresentam resultados significativamente melhores do que aquelas com doença residual, mesmo que mínima. Nenhum esquema de quimioterapia, por mais eficaz, é capaz de compensar uma cirurgia incompleta. A extensão da ressecção cirúrgica é, isoladamente, o fator prognóstico mais importante nessa doença.

Reunião de tumor board multidisciplinar analisando exames de imagem

O momento da cirurgia

A cirurgia pode ser realizada como tratamento primário — antes de qualquer quimioterapia — ou após quimioterapia neoadjuvante, quando o volume inicial da doença ou o estado clínico da paciente não permitem a cirurgia imediata. Essa decisão é uma das mais importantes do tratamento e deve ser tomada em tumor board multidisciplinar, reunindo cirurgia oncológica, ginecologia oncológica e oncologia clínica.

Abordagem cirúrgica

A cirurgia de citorredução no câncer de ovário avançado é um procedimento de grande porte. Além da remoção dos ovários, trompas e útero, pode envolver peritonectomias — remoção de segmentos do peritônio —, ressecção de segmentos intestinais, remoção do omento, esplenectomia, ressecção de implantes no diafragma e, em casos selecionados, ressecção de metástases hepáticas superficiais.

O objetivo é invariavelmente o mesmo: ausência de qualquer resíduo tumoral visível ao final da operação. Cada implante deixado para trás representa uma falha cirúrgica com impacto direto nos resultados.

Em casos selecionados, a cirurgia de citorredução pode ser combinada à HIPEC — quimioterapia hipertérmica intraperitoneal — com o objetivo de tratar microscopicamente a superfície peritoneal após a remoção cirúrgica de toda a doença macroscópica.

Cirurgia de citorredução com ressecção de implantes na pelve

Experiência e complexidade

A citorredução completa no câncer de ovário avançado exige um cirurgião que domine simultaneamente a cirurgia pélvica, a cirurgia digestiva e a cirurgia da superfície peritoneal. É uma operação que frequentemente dura muitas horas e atravessa múltiplos compartimentos abdominais — da pelve ao diafragma.

Não é uma cirurgia para ser realizada por um único especialista de forma isolada. Requer uma equipe com experiência real em cirurgia peritoneal de alta complexidade — a mesma experiência exigida para as grandes ressecções hepáticas, pancreáticas e para a HIPEC. Centros que tratam volume expressivo de casos de câncer de ovário avançado com essa abordagem multidisciplinar obtêm consistentemente melhores resultados do que centros onde essa cirurgia é realizada de forma ocasional.

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